Saiu no blog da Collab 55…

Foi publicado no site da Collab55 um texto que escrevi sobre “influências da diversidade cultura na estética brasileira”, onde pude conversar com artistas que admiro e que tem origens bem diversas e que respondem se suas origens ou o lugar onde vivem refletem em sua arte atualmente.

Agradeço demais aos artistas Magenta King, Leo DCO, Lobo Borges, Sapo Lendário e ao amigo Tosko por cederem um pouco de seu tempo ao responderem minhas perguntas. E é exatamente por conta do tempo é que foi publicado um texto menor, pois esperava o retorno de alguns antes de enviar o texto completo, que pode ser lido abaixo:

Miscigenação cultural e a ilustração brasileira

Sabemos de berço que o Brasil é um caldeirão de misturas e que seja em qual época for receberá pessoas de um país pouco conhecido. Foi assim os italianos, japoneses e também com  os sírios, recentemente. Portanto um brasileiro pode ter uma ascendência bem diversa, possuindo olhos puxados, proveniente de um avô indígena ou chinês, mas que será apenas um detalhe genético no conjunto, pois esses olhos podem ser verdes, emoldurados por cabelos loiros cacheados.

A pergunta que fica é: até que ponto isso influência o trabalho dos artistas brasileiros? Com base nessa questão conversamos com alguns ilustradores, de diferentes áreas sobre suas origens e suas inspirações.

Magenta King é ilustrador e quadrinista, em seus trabalhos é visível a forte influência de artistas asiáticos, como Taiyo Matsumoto e Katsuya Terada (Japão) e também Kim Jung Gi (Coréia do Sul), ele também inclui Paul Pope e Nicolas De Crecy, respectivamente dos Estados Unidos e França. “O que me motiva a procurar [artistas diferentes] e gostar da arte, é o visual mesmo”.

Sapo Lendário é composto por um casal que vive em Caruaru/PE e também cultivam referências diversas que vão desde a Coréia, com Kim Jun Gi, até os Estados Unidos, com Geof Darrow e  Anna Cattish, passando por França (Moebius) e Alemanha (Loish), além de Rússia (Zorin Vasili) e Austrália (Ashley Wood), no entanto o que mais gostam vem do Japão e sua cultura, disseminada pelos mangás, animês, tokusatsus (séries de heróis) e pessoas estranhas que só se encontra por lá.

Nessa mesma onda de produções japonesas, Lobo Borges diz que foi influenciado pelo que assistia quando criança, o que o levou a procurar por Akira Toriyama, Takeshi obata, Eichiro Oda, Masashi Kishimoto, Kentaro Miura, Yusuke Murata, todos japoneses com diversas publicações no Brasil. E se olharmos sua para suas obras veremos que é difícil distingui-las de um mangá japonês, exceto pelos universos retratados.

Fernado Tosko e Leo DCO são mais plurais, ambos já moraram no interior paulista e até dividiram as mesmas salas na faculdade, mas seguiram caminhos diferentes. Tosko é inspirado por artistas do mundo todo, que vão desde às telas como Lautrec (França), Gustav Klimt e Egon Schiele (Austria)  até às paredes como Aryz (Espanha), Edgar Saner (México), Alexis Diaz (Porto Rico), INTI (Chile), OsGêmeos e Speto (Brasil) que resultam na criação de um bestiário bem autoral. Já Leo não cita diretamente quais artistas o influenciou mas sim que “a rotina do dia-dia sendo observada é minha principal fonte de inspiração”. Com equilíbrio invejável, suas obras criaram uma linguagem coesa que mescla rostos realistas à traços e formas geométricas.

Tosko diz que por nascer e viver no Brasil já está acostumado com a pluralidade artística e também “não vejo a  nacionalidade de cada artista como algo que alteraria, mas, sim transforma em um novo olhar para o trabalho, aumentando nosso vocabulário visual e cultural”. Sapo Lendário também concorda: “o que nos encanta é somente os seus trabalhos, independente de nacionalidade, sexo, religião, ou qualquer coisa do tipo”.

Além das referências, que são escolhidas pelos próprios artistas, a maioria concorda que são influenciados pelo local onde vivem. Para Tosko tudo ao seu redor pode ser motivo para um novo trabalho. Como ele mesmo diz “vejo como algo que está sempre em mudança,(…) levando seu trabalho para outros caminhos a partir do que você está vivenciando no espaço físico”. Assim como Tosko, Magenta King também vê o local como agente modificador em seu trabalho. Vivendo na capital paulista, tem o ambiente urbano como cenário de suas histórias, e facilmente encontrará postes, fios e equipamentos eletrônicos misturados à espadas, armaduras e máscaras antigas. No entanto, Lobo Borges não acredita que o ambiente pode influenciar: “É quase impossível, com o acesso a internet, você ter dificuldades de produção”, com razão, a tecnologia ajuda às pesquisas e aproxima em muito artistas do mundo todo, publicando seus trabalhos na rede, mas e quando  o assunto é materiais e bons cursos?

“Em centros urbanos mais desenvolvidos o acesso à tecnologia ou materiais mais sofisticados é maior, mas em regiões menos favorecidas eles se tornam mais difíceis. Isso certamente tem impacto no resultado das obras de cada artista”, afirma Leo DCO, que possui murais em cidades na Alemanha e na Coréia do Sul. Hoje ele vive em João Pessoa/PB mas começou seus murais em Rio Claro, que fica no interior paulista onde seu trabalho era quase pioneiro. Assim como Leo, o duo Sapo Lendário também encontram dificuldades na busca por capacitação e materiais para a produção. “Felizmente temos a internet que nos ajuda a superar todas essas barreiras”, concluem.

Portanto cada pessoa nasce livre para romper com as influências regionais e tradições. Livres para escolherem o que e como desejam se manifestar artisticamente, a diversidade se torna a chave para essas escolhas.

 

Texto escrito por Éder Modanez, que possui ascendência luso-italiana, mas foi criado com animações japonesas numa cidadezinha pacata do interior paulista.

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A sociedade dos corvos

Perto do fim de 2016 fui convidado a participar do coletivo “Sociedade dos Corvos”, que é uma reunião de escritores e ilustradores com o gosto comum por histórias sombrias e o objetivo comum de criar um livro para isso.
Nesta semana terminei a quarta e última ilustração, e para ela me lembrei de uma frase que li em uma reportagem do site Omelete sobre Eisner:

“Toda cena de chuva nas HQs deve muito – muitas vezes faz homenagem direta – à Eisner”

Sem dúvida quando lemos como leitor os quadrinhos muitas vezes não reparamos nos desenhos em si, em como eles nos mostram o que vemos. Apenas quando estamos com o desafio de transformar as palavras em formas é que fazemos esse exercício.
No tempo de Will Eisner não se gráficas com bons equipamentos que pudessem reproduzir qualquer tipo de cor ou efeito, muito menos coloração digital. Então o ilustrador deveria se virar com o preto e branco, então o mestre “se virava”.

eisner

Trabalhar com dificuldades é uma boa ideia, força cada um a pensar de maneira diferente do convencional, das soluções prontas que pensamos por primeiro. E posso dizer que para este desenho fiz vários rascunhos antes de chegar à este, mesmo assim poderia mudar algumas coisas, mas o prazo, esse sim é o melhor das dificuldades, já que se tivesse todo tempo do mundo, nunca haveria um trabalho realmente terminado. (rs)

vida-perfeita-blog

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Detalhe da ilustração do conto Vida Perfeita, de W. F. Endlich (autora de A Senhora do Caos)

Não será a primeira vez que participo de um livro coletivo, nem a última, porque é uma ótima maneira de todos se ajudarem a mostrar ao público uma pequena amostra do que são capazes de fazer, compartilhando despesas e aplausos.